"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Desabafos de Uma Educadora em Crise

SOBRE O CARNAVAL DE SALVADOR

Uma primeira observação é que o carnaval de Salvador não é o carnaval da Bahia, apenas uma das suas formas. 

Segundo, no carnaval da capital baiana imperam duas forças, a física e a econômica. O jeito de dançar é  (grande parte das vezes) agressivo, e quando você busca "fugir" da desproteção, você é extorquido pelo preço de um bloco ou camarote que apenas reproduzem os muros da desigualdade social. 

Os/as considerados/as párias puxam as cordas dos/as que podem pagar, entregando-os/as sãos/ãs e salvos/as no final dos circuitos, para depois cuidarem das próprias mãos em chagas vivas. Mãos semelhantes à do Cristo crucificado!

Aqui em Salvador pecamos em roubar a essência do carnaval, festa cuja mágica é poder ser quem você quiser, driblando a rigidez dos papéis exercidos socialmente. Nele você pode voltar a ser criança, pode trocar de papéis de gênero sem sofrer preconceitos, pode se vestir de rei e rainha! 

Neste caso, no entanto, não adianta fantasia para ser rei, nem majestade para ser rainha ou princesa! O sapatinho de cristal custa pesado e não expira meia noite, segue pelos dias de folia ditando quem serve e quem é servido.

Por isso, apesar das críticas ao modelo e tentativas de democratização, o carnaval de Salvador há muito deixou de ser valioso, para ser apenas caro! Caro demais para quem acredita na fantasia de todos e todas felizes, curtindo a mesma folia!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Crônicas Ribeirenses

AS ASAS, O ASSOMBRO E O ESQUECIMENTO

Era mais um vagaroso dia, bem ao ritmo dos interiores minúsculos destes sertões. Ao longe um barulho começava a chamar atenção dos ouvidos ávidos por novidades. Era um flap flap longínquo, podendo até ser o farfalhar de bananeiras, mas não havia nem próximas e nem em quantidade suficientes para o agora frenético e crescente barulho, vindo em nossa direção.

Eu, meu irmão e meu primo nos entreolhamos espantados e cientes do extraordinário, dando um pulo para fora de casa, buscando lá nos ares até encontrar a razão do nosso espanto: Um incrível helicóptero cortava os céus de Ribeira! Agora, porém, já não éramos apenas três, porque de todas as casas e de todas as ruas, bem como de todas as idades e sexos, víamos correr pessoas tentando acompanhar o surreal objeto. Olhando para o alto, para não perdê-lo de vista, e olhando para os lados, para não esbarrarmos uns nos outros, devemos ter causado nos pilotos o mesmo espanto que eles estavam nos causando.

Era gente por todo lado, quebrando o cenário invariavelmente vazio dos dias comuns, da cidade simples e invisível. Mas aquele não era um dia comum, porque além de voar por sobre as nossas cabeças um enorme helicóptero, a geringonça alada decidiu pousar, escolhendo o campo da cidade para descer de maneira verdadeiramente apoteótica! Quando ele finalizou a decida, você olhava ao redor do campo e tinha muito mais pessoas do que no mais importante de todos os jogos, em todos os tempos. 

O campo era localizado no atual centro de abastecimento, e enquanto aguardávamos o desenrolar da história, silentes e respeitosos com o desconhecido, atrás das quatro linhas, Dona Zelina rezadeira, figura alta, magra, vestida com roupas de chita colorida e lenço no cabelo, com a sua coragem etílica, se dirigiu até a aeronave, com as hélices ainda em movimento, fazendo descer preocupado um dos pilotos, para levá-la de volta.

Depois disso ele entrou novamente na cabine e voaram sem maiores explicações! Até hoje não sabemos o que eles vieram fazer por aqui, mas decerto a visita nos deixou com assunto para falar por muito tempo, ajudando a preencher os espaços entre os ponteiros dos relógios, sempre tão lentos! Na minha cabeça de menina, porém, durante toda a aventura tive esperanças de que aquela aeronave tinha vindo nos livrar do esquecimento, talvez como muitos que ali estavam. Mas seria extraordinário demais que isso fosse verdade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Guardadora de Utopias

A ONÇA, O DIPLOMA E O SISTEMA

De vez em quando, nas aulas de Ribeira, problematizo com as turmas sobre como todo conhecimento é importante. O conhecimento dos livros é importante, o do vaqueiro, do caçador, do pedreiro, do agricultor. Peço para imaginarem, por exemplo, uma pessoa perdida no meio da floresta, na mão porta o seu diploma de graduação e na frente encontra uma onça. A onça se compadecerá da situação, se a pessoa mostrar o diploma para ela e explicar o valor daquele papel? 

... Entre risinhos respondem que não. Continuo a reflexão perguntando se o caçador saberia se virar na situação, e a resposta é de "claro que sim". O conhecimento do caçador, naquele contexto, é muito mais adequado às necessidades do que o conhecimento acadêmico. Continuo com outros exemplo, para reforçar o quanto todas as formas de conhecimento são válidas, são importantes, são dignas e merecem o nosso respeito. 

Entretanto, a minha preocupação de sempre com a juventude ribeirense, é que vivemos um contexto histórico cuja vasta floresta é de letras, números e conhecimento especializado. Para "sobreviverem" nesta época, sem sofrerem com a exploração absurda do sistema, precisam estar munidos daquele papel/diploma que a onça ignoraria, mas que se torna uma espécie de garantia contra outros tipos bem mais perigosos de feras. E são muitas feras soltas por aí.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Desabafos de Uma Educadora em Crise


A MÁQUINA DE MOER SONHOS


Ano passado tivemos aproximadamente 160 alunos completando o Ensino Médio, em Ribeira do Amparo. Afirmei isso numa das turmas de formandos, em 2015, perguntando em seguida quantos destes nossos estudantes iriam ter a oportunidade de fazer uma faculdade. Em meio ao silêncio que se seguiu a pergunta, lancei a hipótese de quem sabe 10 dos 160 alunos, no Ensino Superior, mas as falas, agora imediatas, discordaram completamente.

As falas concordavam que uma dezena era hipótese otimista demais, para a realidade do nosso cenário socioeducacional. Apesar de entusiasta, não discordei ou discordo da percepção deles, esta é a verdade nua e crua, nossos estudantes sonham, mas ao longo dos anos de formação vão sendo roubadas as suas oportunidades, com uma política educacional omissa e tantas vezes deficiente. 
  
Mas isto não é manchete nos jornais ou motivo de indignação nas mesas de qualquer lugar, paira sobre o abandono da juventude das classes menos favorecidas um silêncio cínico e abominável, que é rompido quando jovens cometem algum desvio. A equação é muito simples, nós roubamos os seus sonhos e direitos, mas não abrimos mão de que cumpram com todos os seus deveres. Só nos importamos com vocês, quando vocês nos importunam.

Já sem esperanças, na Escola Estadual Josefa Soares, por exemplo, cada vez menos estudantes vêm optando pelo ENEM. A situação se tornou tão drástica, que nem mesmo a nota da escola está sendo computada pelo INEP. Com as turmas do ano passado, ciente da situação, tive que apelar desde o primeiro dia de aula, com argumentos que iam desde a importância da experiência com aquele tipo de prova, passando pelo SISU, PROUNI, FIES, até surra de cansanção, para quem não fosse.

Não é fácil lutar contra as engrenagens de uma estrutura perversa, como a que vivemos, uma verdadeira máquina de moer sonhos e vomitar privilégios. É duro olhar para os seus alunos e falar de esperanças, tendo que fazer todas as ressalvas por causa dos inúmeros obstáculos que marcam as suas vidas. Nos memoriais feitos ano passado, como em todos os anos, vejo registrado como os sonhos são tantas vezes reféns da realidade, como na fala de uma aluna, que assim diz sobre o seu futuro:

O que eu quero ser? Nossa, sem dúvidas nutricionista, andei pesquisando coisas dessa área e me identifiquei muito. (Mas...) Minha mãe não tem boas condições financeiras, então procuro não cobrar nada dela.

Ou na fala de um aluno:

Eu sempre tive muita vontade de ser arquiteto, esse sempre foi meu sonho, gosto muito dessa área de trabalho, vivo fazendo maquetes, plantas de casas nas horas vagas, mas esse sonho fica um pouco distante por falta de recursos. Não tenho como investir em uma faculdade e minha família também não pode me ajudar muito. Assim esse sonho vai sendo adiado até pintar uma oportunidade aí. (E concluiu...) Sonhar, nunca desistir, ter fé, pois fácil não é, nem vai ser...

Tive dois alunos na escola particular, em Salvador, que me impressionaram pela certeza precoce do que queriam fazer, quando concluíssem o Ensino Médio, assim como pela escolha, até certo ponto inusitada, do caminho a seguir. Eles sonhavam em ser pilotos de avião, e hoje são. Um é da Aeronáutica e o outro piloto comercial. Me encanta vê-los nas suas fotos pelos ares, porque me encanta a capacidade humana de sonhar e também de realizar, mas ainda aguardo o dia em que as asas estejam ao alcance de todos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

CRÔNICAS RIBEIRENSES

Quando a trovoada chegava, vovô se escondia atrás da porta da casa de telhas. Havia uma sensação de segurança inexplicável naquele cantinho, tão protegido quanto a casa inteira. Nas nossas cabeças educadas pelo viés religioso dos pecados merecedores de lições, os céus pareciam reclamar de alguma coisa, com aquela voz rouca, grave e forte dos trovões! Nos cômodos, espelhos sempre cobertos, quietude, como se falar fosse sinal de afronta à bronca que estávamos recebendo. No máximo sussurrávamos o nosso medo uns para os outros.

Ao cessar a tempestade saíamos para olhar o estrago, mas o que sentíamos era o frescor da terra e das plantas molhadas, víamos galinhas balançando as penas para se secarem mais rápido e riachos provisórios fazendo fenda no terreiro, da água que ainda escorria. A vida seguia como costuma seguir, a despeito de qualquer susto que a priori nos desagrade, com a sua inexorável e desafiadora lógica.   

Da minha parte sempre tive medo das forças da natureza, mais até do que de gente malvada, mas diferente de vovô, que de menino aos cabelos brancos acredita no detrás da porta para se proteger, vejo parcas e provisórias formas de proteção à fragilidade humana. Seres reféns do medo e da culpa, donos de tantas verdades aparentes e habitados por tantas dúvidas, efêmeros como os raios, trovões e tempestades.

domingo, 23 de novembro de 2014

Sentimentalidade


"Encontre só com quem no mínimo lhe queira bem
Vá na boa pela sombra e sol só à beira mar
Um sorvete às três da tarde, à noite lua de mel
Com as estrelas lá no céu
As roupas moram no armário mas preferem a viagem
O silencio ama a fala
Quem cala contou pra mim
E o sonho é eterno, praticar é que são elas
É na cabeça que o coração mora
E a flor mais bela é a do jardim
Escreva lá no seu caderno
Que sofrer não é tão ruim"


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Desabafos de Uma Educadora em Crise


DE QUEM É O VOTO?

Lembro quando fui conhecer as instalações do Colégio particular, em que viria a lecionar, em Salvador, junto com os outros professores recém selecionados, para aquela instituição de ensino. Não cheguei a externar isso para os presentes, era algo meu, profundo, mas observava cada detalhe das salas, corredores, da cúpula azul e dizia para mim,

- Poxa, eu sempre quis estudar numa escola assim, e nunca tive oportunidade! Incrível hoje estar aqui como professora.

Ainda me pego fazendo isso, de vez em quando.

Passei a minha vida escolar toda, em Ribeira do Amparo, estudando numa infraestrutura precária, com professores valorosos, mas com os limites inerentes a realidade educacional da qual fazia parte. Sempre ficava pensando,

- Se eu tivesse oportunidade de estudar, com toda a base necessária, eu “iria longe”!

Não houve essa oportunidade, minha família não tinha condições de bancar estudos caros.
Ao concluir o Ensino Médio, porém, mainha (que sempre foi destas sonhadoras inveteradas e teimosa que só) me obrigou a prestar o vestibular. Me obrigou, vale salientar, não é licença poética, me recusava a prestar vestibular para não ter a certeza do que já supunha, como passar num vestibular concorrendo com pessoas que foram conteudisticamente, mais preparadas?

Para encurtar conversa, fiz o vestibular para História em 1998 e passei na primeira chamada, da Universidade do Estado da Bahia – Uneb. Fiquei chocada, emocionada e ao mesmo tempo me bateu uma tristeza profunda por saber que, além de mim, nenhum outro ribeirense, até então, tendo estudado a sua vida inteira em Ribeira, tinha entrado numa universidade. Acredito que nasceu ali essa minha devoção por “fazer algo” por Ribeira. Gostaria que todos tivessem a mesma oportunidade.

Apesar da minha experiência pessoal, diferente do que reza o capitalismo, não acredito nessa conversa de meritocracia. Passar no vestibular pode ter sido mérito meu, mas por trás disso teve mainha professora e amante dos livros me estimulando desde cedo, teve o dinheiro do vestibular para pagar a inscrição, teve a casa da minha tia para morar, tinha comida e dinheiro para pagar o transporte até a Uneb... e principalmente pessoas dizendo que eu podia! Ou seja, um conjunto de coisas mínimas que me deram asas para voar. Sem esquecer aqui o papel dos meus professores, que apesar de não serem graduados, foram buscar conhecimento para compartilhar com a gente.

Em resumo, sou uma brasileira, nordestina, sertaneja, que vivenciou profundamente o que significa a desigualdade social brasileira, mas atualmente se encanta por não mais constatar que a falta de oportunidade rouba os sonhos das pessoas. Não como antes!

A minha palavra de ordem é esta: OPORTUNIDADE, por isso estarei sempre perto de quem as cria, sempre distante de quem as rouba. Logo, não adianta uma metralhadora de preconceitos, estereótipos e rótulos, porque estes não me atingem. Aliás, quem arrota preconceitos fala mais de si do que do outro, mostra ser uma pequeneza de ser humano, muitas vezes travestido de defensor do Brasil, Brasil que desconhece, Brasil individualista, racista, classista, egoísta!...

Portanto, que não me venha a parcela preconceituosa do meu país querendo me dizer em quem votar, porque o voto é meu, é livre, é pautado na minha experiência de vida, e esta diz um veemente não a política excludente dos tucanos e diz um veemente sim a Dilma!